Cinco escritores de livros de crimes que eram realmente assassinos

Nancy Crampton Brophy, uma romancista de 68 anos, do Oregon, Estados Unidos da América, que escreveu um livro sobre uma mulher que “passou todo o dia do seu casamento a fantasiar sobre matar o marido”, foi presa por, bom, supostamente assassinar o marido.

Em 2015, a escritora publicou, em edição de autor, um livro chamado “The Wrong Husband”, sobre uma mulher que tentava escapar do marido abusivo ao fingir a sua própria morte. E, em 2011, escreveu um ensaio intitulado “Como Matar o Seu Marido”, para um blog chamado See Jane Publish.

“Como escritora de romances policiais, passo muito tempo a pensar em assassinatos e, consequentemente, sobre procedimentos policiais”, contava. E acrescentava: “Afinal de contas, se é suposto que o homicídio me liberte, certamente não quero ir para a cadeia”.

Apesar do suposto assassinato de Crampton Brobhy ser um caso particularmente absurdo da vida a imitar a arte, não é um acontecimento assim tão raro.

Abaixo, juntamos os exemplos mais chocantes do que acontece quando autores de romances policiais transformam a sua ficção em realidade, às vezes ecoando o conteúdo do próprio trabalho.

Liu Yongbiao

Em Agosto de 2017, o escritor chinês Liu Yongbiao estava a trabalhar num livro quando foi preso por quatro assassinatos que tinham acontecido há mais de duas décadas.

O livro, chamado “A Bela Escritora que Matava” era sobre uma escritora que matou muitas pessoas, mas os casos continuavam sem solução”.

Segundo o site chinês “Sixth Tone”, Liu foi preso na sua casa pela suspeita de que ele e um cúmplice estavam envolvidos num roubo que correu mal em 1995.

A polícia acredita que os suspeitos – Liu, de 53 anos, e um homem chamado Wang, 65 – foram a um hostel na cidade de Huzhou para roubar os hóspedes, mas acabaram a espancar um homem até à morte.

Depois, terão matado os donos do hostel e o seu neto de 13 anos para encobrir o crime.

O caso tinha esfriado – até que uma nova prova de ADN levou a polícia à porta de Liu.

Quando os agentes o prenderam, ele terá dito “Estive à vossa espera todo este tempo”.

O segundo romance de Liu chamava-se “O Segredo da Culpa”.

Numa carta que Liu terá escrito para a mulher, confessava os seus crimes, dizendo “Vivi com medo durante 20 anos. Sabia que este dia ia chegar. Finalmente, estou livre do tormento mental que aguentei durante tanto tempo”.

Segundo o “Daily Mail”, Liu foi sentenciado à pena de morte em Julho de 2018.

Blake Leibel

Em Junho de 2018, o escritor Blake Leibel apanhou prisão perpétua por torturar e matar a sua namorada Iana Kasian, “cujo corpo foi encontrado drenado de todo o sangue, num crime que a promotora disse espelhar o roteiro de uma novela gráfica que ele co-escreveu”, segundo a “CBS Los Angeles”.

Beth Silverman, a advogada de acusação, definiu a tortura e morte brutal de Kasian em 2016 de “um caso da vida a imitar a arte”, apontando que a novela gráfica, “Syndrome”, tinha retratos de drenagem de sangue.

 

A capa do livro também mostra uma boneca a ser escalpelizada, o que lembrava as partes do corpo encontradas na cena do crime.

Richard Klinkhamer

Em 1992, um ano depois da esposa do escritor de romances policiais holandês Richard Klinkhamer desaparecer, o autor deu ao seu editor um manuscrito que, segundo o “Guardian”, “era uma exploração detalhada de sete maneiras como Klinkhamer poderia ter matado a esposa, Hannelore.

Num dos cenários do romance, ele ter-se-ia livrado do corpo ao passar a sua carne por um moedor e dá-la aos pombos”.

Apesar de Klinkhamer ser um suspeito imediato do inquérito da polícia sobre o desaparecimento da esposa, as autoridades não podiam continuar com a investigação, porque não tinham o corpo.

Depois do manuscrito macabro e, aparentemente, autobiográfico do escritor ter sido rejeitado pelo editor por ser demasiado chocante, excertos começaram a aparecer na imprensa underground holandesa.

Tornou-se quase uma celebridade literária e apareceu como convidado em vários programas de TV.

Depois dele se mudar para Amesterdão, uma família foi viver para a casa que Klinkhamer dividia com a sua esposa.

Para umas obras de remodelação, contrataram uma equipa que acabou por encontrar um crânio enterrado debaixo do chão de cimento, de um barracão no quintal, que pertencia à esposa de Klinkhamer, Hannelore.

Em 2000, a polícia finalmente prendeu Klinkhamer pelo assassinato e ele  acabou por confessar.

Krystian Bala

O romancista Krystian Bala pode ter-se safado do homicídio de um empresário polaco em 2000, mas, três anos depois, publicou “Amok”, onde contava a história de um intelectual polaco chamado Chris (a versão em inglês de Krystian), que “assassinou uma amante sem razão… e escondeu o acto tão bem que nunca foi apanhado”.

Em “Amok”, a descrição do assassinato da mulher – amarrada com as mãos atrás das costas e com a corda também atada ao pescoço – era bizarramente parecida com um homicídio que tinha deixado os investigadores perplexos alguns anos antes.

Em 2000, a polícia encontrou o corpo de Dariusz Janiszewski num rio. Havia sinais de que tinha passado fome e sido torturado. Também estava amarrado.

“Parte da corda, que parecia ter sido cortada com uma faca, ligava as suas mãos ao pescoço, deixando o homem numa posição excruciante – qualquer movimento poderia apertar ainda mais a corda”, escreveu David Gann na “New Yorker”.

Quando o detective Jacek Wroblewski assumiu o caso em 2003, rastreou uma chamada suspeita feita para o escritório da vítima, mesmo antes do assassinato, a partir de um telemóvel comprado por Krystian Bala, que o autor vendeu mais tarde pelo eBay.

Wroblewski começou a pesquisar sobre Bala e deu de caras com o seu livro “Amok”.

Segundo a “New Yorker”: “Ele reparou particularmente no método do assassino: ‘Apertei o laço ao pescoço dela’.”

O livro não podia ser usado como prova, mas levou Wroblewski a outras pistas e, eventualmente, Bala acabou por apanhar 25 anos de prisão pelo seu papel no crime.

Durante o julgamento, o juiz salientou: “Há características partilhadas entre o narrador do livro e o autor”.

Anne Perry

Antes de Anne Perry ser uma romancista de best-sellers policiais, passou cinco anos na cadeia pelo assassinato da mãe da sua melhor amiga.

Nascida Juliet Hulme, a rapariga então com 15 anos foi considerada culpada de espancar Honora Parker até à morte, em conjunto com a filha de 16 anos da vítima, Pauline Parker.

O crime violento aconteceu em 1954, depois dos pais de Hulme lhe contarem que se estavam a divorciar e que a iam mandar para a África do Sul para morar com uma tia.

Tendo desenvolvido um laço forte com Parker, Hulme pensou que poderiam deixar a Nova Zelândia juntas, mas a mãe de Parker, Honora, não permitiu.

“A recusa desencadeou uma fúria assassina em Parker e Hulme acreditava que devia ajudar a amiga, atraindo a Sra. Parker para o parque Christchurch e espancando-a com um tijolo dentro de uma meia”, segundo o Guardian.

Depois de ter sido libertada, Hulme mudou-se para a Escócia e reinventou-se como romancista de livros de crime, mudou o seu nome para Anne Perry e publicou quase 40 livros.

A sua verdadeira identidade só foi exposta em 1994, depois de Peter Jackson ter feito “Almas Gémeas”, um filme baseado no crime.

Numa entrevista ao “60 Minutes”, em 2012, Perry dizia que acreditava já ter pago a sua dívida para com a sociedade: “É preciso pagar, quando sabes que erraste. Depois podes deixar isso para trás. Não é uma coisa terrível, é uma coisa boa, a de pagar e depois deixar tudo para trás”.

Clique aqui para aceder à bibliografia de Anne Perry

Artigo Original :
https://www.vice.com/pt/article/59apbb/cinco-escritores-de-livros-de-crimes-que-eram-realmente-assassinos

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