Os maiores vícios dos escritores

Pessoa era um bêbado, Kafka obcecado com o corpo, e Hemingway atormentava mulheres. Faça as palavras-cruzadas e adivinhe a que génio pertence cada loucura.

São 22 escritores, portugueses e estrangeiros, que descem do pedestal da alta literatura para aterrarem na tasca mais rasca deste planeta. Com cocktails de anfetaminas nas mãos, prostitutas no colo e a gastar tudo em jogo. Nada que os impedisse de criar Os Lusíadas, O Processo ou O Velho e o Mar. “Os grandes escritores são os indivíduos mais trapalhões e confusos de todos os tempos em matéria de definição do que é o humano, e quanto mais trapalhões em definições sistemáticas do humano, maior a longevidade do seu sucesso literário.” A frase é de André Canhoto Costa, doutorado em História, que gosta mais do lado B dos factos e escreveu Os Vícios dos Escritores.

Os vícios dos escritores

Os exemplos dos excessos são muitos. Como Camões que “por gajas e zaragatas perdeu um olho” e se apaixonou pela filha, de 12 anos, da amante. Eça de Queiroz era um mulherengo, com queda para as casadas. Camilo Castelo Branco, um viciado em jogo, tal como Dostoiévski, que era tão fanático que gastava o dinheiro nos casinos enquanto os filhos passavam fome. André Canhoto Castro confessa ter um único vício: o futebol, ou melhor, o Benfica. O autor não estabelece uma relação de causa e efeito entre a loucura e a genialidade, mas deixa a porta aberta. “Podemos dizer que há muitos excêntricos e viciados que são uma nulidade como escritores, e que é difícil encontrar um escritor com verdadeiro talento sem uma qualquer dependência, mania ou repetição obsessiva”, explica à SÁBADO.

1. Oscar Wilde: “Notabilizou-se como apreciador de menores. Existem relatos – até detalhados, devido ao processo criminal de que foi alvo – com informações sórdidas sobre o conteúdo das manchas de fluidos corporais nos lençóis dos quartos de hotel, onde se encontrou com rapazes de idades entre os 15 e os 20 anos. Pode dizer-se que levou a prática do vício até aos limites do possível, tentando inverter o sistema moral do Ocidente. Gastou fortunas nas luxuosas refeições (com alimentos caros da Sicília e de Nápoles) que precediam os encontros. Na prisão, escreveu o mais impressionante texto de contrição, lucidez e arrependimento na história da literatura ocidental.”

2. Hemingway: “Era uma espécie de touro de cobrição, com uma sensibilidade de bailarina clássica, a tentar dançar o tango. Teve uma educação esmerada. Mas sempre fez questão de explorar – talvez por raiva, contra um meio intelectual que o não reconheceu desde logo – o lado desportivo e machista. Entre as peripécias lendárias, conta-se a exploração de uma montanha em Itália, onde ele e o amigo seguiam fortemente equipados, enquanto a sua esposa seguia com o calçado normal, tendo a mulher chegado a meio da caminhada com os pés em sangue, perante a tranquilidade do escritor norte-americano. Passou a vida a atormentar as mulheres por quem se apaixonou.”

3. Philip K. Dick: “Um homem que caminhou com extrema sensibilidade e equilíbrio na finíssima linha que separa a loucura da sabedoria. Passava uma semana acordado a escrever romances de ficção científica, de jacto, alimentado a batidos de fruta misturados com anfetaminas, que guardava religiosamente no frigorífico, enquanto a casa se enchia de adolescentes enlouquecidos e muitas vezes toxicodependentes. Apesar de ser um homem encantador, no atribulado processo de divórcio com uma das suas esposas, Anne, chegou a comprar uma pistola e a ameaçar dar-lhe um tiro, pois temia ser envenenado. Prova da sua suprema inteligência foi o facto de ter convencido os médicos psiquiátricos a internarem a sua mulher, e não o contrário.”

4. Gogol: “Era mais uma mania do que um vício. Quando foi convidado para professor de História na Universidade de S. Petersburgo (e não tendo a mínima paciência para ser um académico), após três palestras brilhantes (e esgotando o seu repertório de temas), fingia ter violentas dores de dentes, apresentando -se diante dos alunos com um pano a atar o queixo, de forma a tornar incompreensível o conteúdo das aulas, para as quais não tinha preparado nada. Não fosse o inventor da literatura contemporânea, e só por isto, seria merecedor da nossa admiração.”

5. Kafka: “Tinha um interesse obsessivo com o corpo e a saúde, incluindo a prática do nudismo, seguindo uma moda comum a diversos intelectuais e membros da classe média do início do século XX. Comia pouco e sobretudo vegetais, mais por motivos de bem-estar corporal do que por razões éticas.”

6. Fernando Pessoa: “Os académicos têm feito um esforço hercúleo para negar o seu alcoolismo. Não se conformam com o facto de o grande poeta nacional ser um gajo que se metia nos copos, embora toda a gente considere normal que uma pessoa tenha consumido a sua vida a escrever textos (muitas vezes irrelevantes) para depois os encerrar dentro de uma arca, em que – alegadamente – nos ajuda a compreender a nossa própria mente. Embora se diga que nunca ninguém o viu embriagado, há diversos testemunhos de que bebia regularmente, e abandonava o escritório, por vezes, para ir beber um copo à tasca.”

7. Melville: “O mais mitificado dos escritores, aquele em que a missão de grande vulto criador do imaginário nacional, livre e republicano, está mais presente entre os eruditos. As biografias relegam para o silêncio os aspectos escabrosos da sua vida, mas dei de caras com um artigo académico vagamente obscuro, no qual se avança com a acusação de violência doméstica. Torna -se doloroso imaginar o gigante das grandes emoções morais enterrado num emprego público numa alfândega, chegando a casa embriagado, pronto para aterrorizar a sua família.”

8. Proust: “Nas suas visitas nocturnas a um bordel, segundo consta, perante dificuldades de satisfação – vivia encharcado em narcóticos de vária ordem –, entregava-se a um ritual que envolvia luta de ratazanas numa gaiola (com um retrato da mãe por perto). Sendo o escritor que mais me impressionou até hoje (na reunião de talento, rigor, dedicação, honestidade, cultura e capacidade de trabalho), tinha uma infinita generosidade, capaz de gastar fortunas (quase comprou uma avioneta e um Rolls-Royce para o seu amante).”

Artigo originalmente publicado na edição n.º 704 de 26 de Outubro de 2017.

Artigo Original:

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/os-maiores-vicios-dos-escritores

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